quinta-feira, 3 de março de 2016

LEMBRANDO ANTIGAS MICARETAS

Bacalhau na Vara

“Estávamos entre amigos quando um filho de Olinda, em Pernambuco, se disse surpreso quando ouviu Hugo Navarro dizer, na Tv Subaé, que o bloco carnavalesco "Bacalhau na Vara" havia sido criado em Feira de Santana há mais de 70 anos. Ele acreditava que o "Bacalhau na Vara" era um bloco copiado do "Bacalhau do Batata" que existe em Pernambuco.

Estando em plena Micareta e mais uma vez com o desfile do Bacalhau na Vara, achamos que está na hora de contarmos a história real do bloco que nasceu de uma gozação dos comerciantes e foliões da cidade.

Não posso precisar a data, mas conheci todos os personagens que criaram e formaram o primeiro bloco. Tudo começou com o Manoel Pereira, carnavalesco que tinha uma venda (pequena mercearia) na esquina do Fiado, hoje Praça da República. Manoel, para que o bacalhau, prato imprescindível na quarta feira de cinzas, ficasse com boa aparência e mais pesado borrifava-o usando água com um pouco de sal, e na quarta feira pendurava-o ao sol. Como a maioria das casas tinha o quintal cercado por varas finas da madeira candeia, ele espetava o bacalhau em cada vara do quintal e ali ficava protegendo sua mercadoria dos urubus, gatos e cachorros que sempre apareciam atraídos pelo cheiro ativo.

Quando os fregueses o procuravam e perguntavam a sua esposa por Manoel, esta informava que ele estava "com o Bacalhau na Vara". Os gozadores aproveitavam-se do duplo sentido da frase para alfinetar o Manoel, que também era outro gozador. Antoninho Bodão, dono da então Panificadora Moderna e amigo íntimo de Manoel Pereira, convenceu-o a fazer um pequeno bloco na quarta de cinzas e levar um bacalhau espetado em uma vara como se mostrasse o verdadeiro sentido da brincadeira.

Assim nasceu o Bacalhau na Vara que contava, entre outros, com o próprio Manoel Pereira, porta estandarte com um bacalhau seco enfiado em uma vara, Antoninho Bodão, Gringo Cabeçorra, Carlos Pitombo, Gilberto Falcão, Florisberto Moreira, Almiro Vasconcelos e outros. Sendo Manoel também músico da Vitória, não foi difícil arranjar outros músicos para acompanhar o bloco, que posteriormente foi ampliado e organizado com diretoria, etc.

Mas o duplo sentido do Bacalhau na Vara durou até que o bloco fosse desfeito. Depois, revigorado, perdeu o sentido da gozação antiga e está nas ruas e, durante a noite, depois de os componentes pularem muito, ainda traz aquele cheiro característico, que já não é do peixe...
(De Historiador Antonio Moreira, o Antonio do Lajedinho, em 17 de abril de 2010)

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