Bacalhau na Vara
“Estávamos entre amigos quando um filho de Olinda, em
Pernambuco, se disse surpreso quando ouviu Hugo Navarro dizer, na Tv Subaé, que
o bloco carnavalesco "Bacalhau na Vara" havia sido criado em Feira de
Santana há mais de 70 anos. Ele acreditava que o "Bacalhau na Vara"
era um bloco copiado do "Bacalhau do Batata" que existe em
Pernambuco.
Estando em plena Micareta e mais uma vez com o desfile do
Bacalhau na Vara, achamos que está na hora de contarmos a história real do
bloco que nasceu de uma gozação dos comerciantes e foliões da cidade.
Não posso precisar a data, mas conheci todos os personagens
que criaram e formaram o primeiro bloco. Tudo começou com o Manoel Pereira,
carnavalesco que tinha uma venda (pequena mercearia) na esquina do Fiado, hoje
Praça da República. Manoel, para que o bacalhau, prato imprescindível na quarta
feira de cinzas, ficasse com boa aparência e mais pesado borrifava-o usando
água com um pouco de sal, e na quarta feira pendurava-o ao sol. Como a maioria
das casas tinha o quintal cercado por varas finas da madeira candeia, ele
espetava o bacalhau em cada vara do quintal e ali ficava protegendo sua
mercadoria dos urubus, gatos e cachorros que sempre apareciam atraídos pelo
cheiro ativo.
Quando os fregueses o procuravam e perguntavam a sua esposa
por Manoel, esta informava que ele estava "com o Bacalhau na Vara".
Os gozadores aproveitavam-se do duplo sentido da frase para alfinetar o Manoel,
que também era outro gozador. Antoninho Bodão, dono da então Panificadora
Moderna e amigo íntimo de Manoel Pereira, convenceu-o a fazer um pequeno bloco
na quarta de cinzas e levar um bacalhau espetado em uma vara como se mostrasse
o verdadeiro sentido da brincadeira.
Assim nasceu o Bacalhau na Vara que contava, entre outros,
com o próprio Manoel Pereira, porta estandarte com um bacalhau seco enfiado em
uma vara, Antoninho Bodão, Gringo Cabeçorra, Carlos Pitombo, Gilberto Falcão,
Florisberto Moreira, Almiro Vasconcelos e outros. Sendo Manoel também músico da
Vitória, não foi difícil arranjar outros músicos para acompanhar o bloco, que
posteriormente foi ampliado e organizado com diretoria, etc.
Mas o duplo sentido do Bacalhau na Vara durou até que o
bloco fosse desfeito. Depois, revigorado, perdeu o sentido da gozação antiga e
está nas ruas e, durante a noite, depois de os componentes pularem muito, ainda
traz aquele cheiro característico, que já não é do peixe...
(De Historiador Antonio Moreira, o Antonio do Lajedinho, em 17 de abril de 2010)



Nenhum comentário:
Postar um comentário